sexta-feira, janeiro 07, 2005

Fonógrafo (3)


DAVID SYLVIAN
David Allan Batt, nasceu a 23 de Fevereiro de 1958 em Lewisham, Londres, Inglaterra
Estilo: Pop Alternativo/Indie Art-Rock/Experimental/Ambient/Electrónica
Temperamento: Elegante, Intenso, Outonal, Poético, Misterioso, Melancólico, Ambiental, Étnico, Delicado, Reflexivo, Sofisticado, Intimista, Luminoso, Visceral, Orgânico.


Secrets of Beehive, 1987 - 10/10


Dead Bees On a Cake, 1999 - 8/10


Blemish, 2003 - 9/10


David Sylvian é o músico esteta por excelência. Para o líder carismático dos Japan, Rain Tree Crow (a mesma formação dos Japan em 89/90) ou mais recentemente a solo, a música, a poesia e a espiritualidade não têm que viver lado a lado, mas integradas dentro do mesmo espírito ou conceito. A sua versatilidade e elegância tem lhe granjeado muitos convites junto de outros artistas. A sua carreira a solo começou com dois singles em parceria com Ryuichi Sakamoto, Bamboo Houses e Forbidden Colours, este último para a banda sonora do filme Merry Christmas Mr. Lawrence. Desde 1984, com Brilliant Trees, construiu o seu universo criativo, sempre pontuado por grandes participações, com músicos de primeira água da área do Jazz, Pop até à World Music. É possuidor de uma voz marcante, a que poucos ficam indiferentes. As suas influências não são fáceis de detectar numa primeira abordagem, mas vocalmente andará próximo de um Scott Walker e David Bowie ou Bryan Ferry; a música é bem mais complexa: bebe água a oriente, caminha de braço com a pop, pisca o olho ao Jazz e à World, e recentemente tem com a electrónica a par de instrumentos acústicos uma relação muito profícua. As palavras, essas, continuam com o melhor recorte poético. Nestes três albúns, todos eles com a sua atmosfera própria, reúnem, de algum modo, os momentos mais altos de uma carreira meritória.
(worldcitizen)

Nota: O albúm Secrets of Beehive foi, talvez, o disco pop que o grupo de amigos do World Citizen mais ouviu nos anos 80. A primeira compra deste disco foi em vinil e passados uns meses, o disco começou a dar sinais de rendição.

Discografia:

Originais:
Brilliant Trees, 1985
Alchemy:An Index of Possibilities, 1985
Gone To Earth, 1986
Secreets Of Beehive, 1987
Plight and Premonition, 1988
Flux + Mutability, 1989
Rain Tree Crow, 1991
The First Day, 1993
Damage: Live, 1994
Dead Bees on a Cake, 1999
Approaching Silence, 1999
Blemish, 2003
World Citizen, 2003


Compilações:

Weather Box, 1988

Everything And Nothing, 2001

Camphor, 2002




quinta-feira, dezembro 09, 2004

Break a Leg (2)



Lady in Satin, 1958

BILLIE HOLLIDAY

Acompanhada pela Orquestra de Ray Ellis, Billie encontra aqui alguns dos músicos que mais aprecia e por essa razão sente-se segura e acarinhada. Lady Day, tem neste registo, o penúltimo e o mais controverso da sua carreira. Ao contrário de outras Jazzsingers, grava com a voz já completamente destroçada pelo álcool e pelas drogas, dando um aspecto de cansaço e desgaste . Quando era suposto já nada esperar-mos de uma voz, aparentemente, roufenha e com pouca projecção, revela-se-nos algo enigmática, quase em tom de despedida, mas guiada por uma força inspiradora, capaz de revelar a alma humana desnudada, expressando a dor da vida, e que a sua voz tão bem a soube verter numa taça para nos brindar com um álbum inesquecível.
(worldcitizen)

sexta-feira, novembro 12, 2004

Um Fio de Luz (3)




Bill Viola
A percepção, o movimento, o tempo e a transcendência

À cerca de 30 anos que Bill Viola utiliza o suporte vídeo nas suas instalações, com painéis de larga escala para projectar os seus trabalhos. Em 1972 com Tape I, iniciou todo um processo criativo com imensas potencialidades e que ao longo dos anos veio a confirmar ser um dos nomes mais relevantes do panorama artístico contemporâneo. Tem trabalhado para televisão, teatro e galerias. A sua obra mais conhecida e mais bem recebida foi, sem dúvida, The Passing, 1991.
O seu trabalho reflecte uma profunda relação com a história da arte, com a percepção sensorial, o movimento, o tempo e a transcendência.
O Museu Guggenheim de Bilbao apresenta desde Junho de 2004 até Janeiro de 2005 uma mostra dos seus trabalhos mais recentes: Going Forth By Day, 2002, um ciclo em cinco partes com imagens digitais projectadas em largos painéis, criando uma poderosa instalação que analisa os ciclos do nascimento, da morte e do renascer. Five Angels for the Millennium, 2001, uma instalação integrada por cinco projecções e que nos oferece uma reflexão mais ambígua, mas de impacto semelhante ao anterior, sobre temas relacionados entre si, através de uma iconografia de figuras que emergem e submergem na água, criando uma experiência evocativa e sensorial vivida.


FIVE ANGELS FOR THE MILLENNIUM, 2001





GOING FORTH BY DAY, 2002
The Voyage



HEAVEN AND EARTH, 1992



THE MESSENGER, 1996



O MENSAGEIRO DE BILL VIOLA

O homem mergulhado na primeira água
a mais simples, bombeada pelo coração
e limpa pelo sangue.

A carga de luz que acolheu no seu espirito
só lhe inspira a dor pura da sua condição
e ao emergir da água
sente a vida: o ar, o nascimento, o crescimento.
Descobre que o destino não pensa no particular
que apenas recebe na sua arte de receber
e assim dá a vida e contempla a morte.
Os olhos fecham para abrirem por dentro
onde a inteligência não se desloca, não se perde
mas confia
ganha sentido
a sua visibilidade.

Poema de Vasco Ferreira Campos, do livro «O Coração Sabe» editado pela Hissopo, 2003

segunda-feira, outubro 25, 2004

Fonógrafo (2)


MOMUS
Nicholas Currie, nasceu em 1960 em Paisley, Escócia
Estilo: Pop Alternativo/Chamber Pop/Indie Pop/Songwriter/electrónica
Temperamento: Cerebral, Elegante, Excêntrico, Irreverente, Provocador, Sofisticado, Sarcástico, Literário, Humorístico, Teatral, Sexual, Refinado, Divertido.



Tender Pervert, 1988 - 9/10

Hippopotamomus, 1991 - 8/10


Stars Forever, 1999 - 9/10


Momus (Nicholas Currie) é paradigma do artista eclético. Nestes três álbuns, onde, provavelmente, encontraremos a singularidade deste autor de canções, quase sempre surpreendente – motivos suficientes para lhe reservar um lugar de destaque numa qualquer colecção de música Pop. A sua carreira, apresenta-nos propostas melódicas feitas em cima do fio da navalha; sempre "Le grand provocateur". Quem o acompanhou ao longo da sua carreira percebe que estabeleceu sempre, um desafio constante, entre a sublime arte pop mais sofisticada e intelectual e a sempre presente viabilidade comercial. Entre piscadelas de olho ao Cabaret Berlinense de Kur Weil, à Chanson Française de Gainsbourg e Brel, à pop dos songwriters, próximo de um Leonard Cohen e do glamour-Pop de Bryan Ferry. O processo de composição electrónico esteve, durante muito tempo, e no que concerne à Pop, conotada com algo simples, fácil ao ouvido, mais comercial e salvo uma ou outra excepção, não era bem tolerado pela crítica e, portanto, não havia lugar a contra-ordenação. Simplesmente esquecia-se. No caso de Momus, o resultado, vai no sentido exactamente contrário, a pop electrónica melódica do melhor recorte, sempre acutilante e elaborada. No final dos anos 80 pontua num ou noutro tema algo de New Order ou de Pet Shop Boys. No albúm Stars Forever, respira-se uma estética depurada, a que não é estranha uma influência japonesa. Mais recentemente, é precisamente no terreno da electrónica, tradicionalmente mais adverso aos songwriters, que conseguiu demarcar o seu espaço criativo e aí abrir alguns dos caminhos mais interessantes e inovadores da música Pop.
(worldcitizen)
Discografia:
Originais:
Otto Spooky, 2005
Oskar Tennis Champion, 2003
Folktronic, 2001
Stars Forever, 1999
The Little Red Songbook, 1998
Ping Pong, 1997
The Philosophy Of Momus, 1995
Slender Sherbet, 1995
Timelord, 1993
Voyager, 1992
The Ultraconformist, 1992
Hoppopotamomus, 1991
Don’t Stop The Night, 1989
Tender Pervert, 1988
Circus Maximus, 1986
The Man On Your Street, 1982
Compilações:
Forbidden Software Timemachine, 2003
Twenty Vodka Jellies, 1996
Monsters Of Love, 1990



domingo, outubro 24, 2004

Um Fio de Luz (2)


Ryan Obermeyer






Paintings





Digitalimagery









Bjork




sábado, outubro 16, 2004

Poesia (1)



Weather in My Brain ::: Takagi Masakatsu



NIZAR QABBANI


Uma Aula de Desenho

Meu filho põe a sua caixa de pintura à minha frente
E pede-me que desenhe um pássaro.
Ponho o pincel no pote de cor cinza
E pinto um quadro com fechaduras e grades.
Seus olhos arregalaram-se surpreendidos:
...Mas isso é uma prisão, pai,
Não sabes desenhar um pássaro?
E digo-lhe-: "Filho, perdoa-me.
Esqueci-me da forma dos pássaros."
Meu filho pousa o caderno de desenhos à minha frente
E pede-me que desenhe uma espiga de trigo.
Pego no pincel e desenho uma arma.
Meu filho ri-se da minha ignorância, perguntando:
"Pai, não sabes a diferença entre uma espiga de trigo e uma arma?"E digo-lhe: "Filho,
uma vez usei a forma da espiga de trigo
a forma do pão
a forma da rosa
mas nestes tempos duros
as árvores da floresta juntaram-se
aos homens da milícia
e a rosa veste uniformes escuros.
Neste tempo de espigas de trigo armadas
de pássaros armados
de cultura armada
e de religião armada
não se pode comprar pão
sem se encontrar uma arma no seu interior
não se pode colher uma rosa do campo
sem que os seus espinhos nos rasguem a cara
não se pode comprar um livro
que não vá explodir entre os nossos dedos."
Meu filho senta-se na berma da cama
e pede-me que recite um poema
Uma lágrima cai de meus olhos na almofada.
Meu filho pega-a, surpreendido e diz:
"Mas isto é uma lágrima, pai, não é um poema!"
E digo-lhe:
"Quando cresceres, meu filho,
e aprenderes o "Diwan" da poesia árabe
descobrirás que palavra e lágrima são gémeas
e que o poema árabe
não é mais que uma lágrima chorada por dedos que escrevem."
Meu filho pega nos pincéis,
na caixa de pintura que estava à minha frente
e pede-me que lhe desenhe uma pátria.
O pincel treme nas minhas mãos
E eu afundo-me nas lágrimas.




Escrito por Nizar Qabbani
Escritor Sírio, considerado um dos maiores poetas árabes do amor e da política. Morreu em Londres, aos 75 anos, em Maio de 1998. Destacou-se com obras eróticas que quebraram as tradições literárias no Médio Oriente, sempre em defesa da emancipação das mulheres.Alguns dos seus textos ficaram imortalizadas nas canções da egípicia Umm Kulthoum e da libanesa Faurouz.
(Versão a partir do Castelhano e do Inglês)



sexta-feira, outubro 08, 2004

Fonógrafo (1)



HUGO LARGO, 1984 - 1989
Estilo: Pop Alternativo/Dream Pop

Temperamento: Intenso, Hipnótico, Misterioso, Outonal, Doce/Amargo, Melancólico



Hugo Largo - Drum, 1988
10/10





Hugo Largo - Mettle, 1989
10/10


Os Hugo Largo são provavelmente uma das bandas mais ignoradas dos anos 80. Estes dois registos são de facto inesquecíveis. Uma formação nada ortodoxa, com dois baixos, um violino e uma voz que vem do céu azul por entre algumas nuvens brancas, muito ténues. Este projecto parece não lembrar quase nada, apenas se aproxima na formação instrumental dos britânicos Young Marble Giants, embora o resultado final seja algo diferente.
O som desta banda poder-se-ia enquadrar no Underground Novaiorquino, mas aquelas paisagens sugeridas pelo violino e pela voz de Mimi levam-nos para paragens do interior da América, ora domésticas e infantis ora de vales extensos e de montanhas agrestes.
Desde 2000 que estes álbuns foram repostos no mercado português em CD.

Para quem achou pouco e gostaria de ter mais, ainda assim, há um outro álbum: Arms Akimbo, ou então o álbum de estreia de Mimi Goese. Excelente Estreia.




Mimi Goese – Soak, 1998
8/10



Nota: Estes registos são prova (para não falar noutros) mais que suficiente para demonstrar que a pop está contaminada, por variadíssimas razões, pelo formato da banda (rock) com guitarras, baixo e bateria; basta ver as listas dos melhores de sempre pelas principais revistas e percebemos imediatamente o quanto perdemos. Não que as bandas tenham qualquer culpabilidade, mas a crítica forma e deforma o gosto dos melómanos. Na verdade, passados tantos anos as bandas com formação (rock) que vão germinando, não têm conseguido mais que a mera imitação de outras anteriores. Expiram um ar bafiento e sem oxigénio. Exemplo disto é o nosso rock, que ao contrário do que dizem, não é português, mas sim anglosaxónico e muitíssimo pobre, salvo raras excepções, obviamente.
(worldcitizen)